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sexta-feira, 3 de abril de 2020

As plumas, polainas e paetês de Dua Lipa


Existe um ditado muito popular que diz que ‘’o pop está morto’’. Essa afirmativa não é de toda errada, o gênero musical mais ‘’pop-ular’’ de todos se viu em considerável declínio nos últimos anos, devido a suas principais interpretes entrarem em uma espiral de fracassos ou mudanças de gênero. De Beyoncé a Kylie Minogue, passando por Christina Aguilera e até Madonna, todas se viram em momentos de mudança, por vontade própria ou não, e acabaram mergulhando em outros mares para se manter no auge, algumas com êxito, outras nem tanto. Dentre as grandes artistas, vale ressaltar que Taylor Swift foi uma das poucas que se ateve, puramente, ao gênero, mas entregando trabalhos tão fracos como, por exemplo, ‘’Reputation’’ (2017), fica difícil torcer pela cantora.
Eis que surge Dua Lipa, inglesa de pouco mais de 20 anos, ainda em 2017 com um álbum debut totalmente voltado ao pop. Seu nome cresceu aos poucos, obteve um dos maiores hits do ano com ‘’New Rules’’ e emplacou, posteriormente, hits com artistas de grande nome nas pistas de dança como Martin Garrix, Calvin Harris e Diplo. Para coroar tudo isso, em seu auge no Grammy 2019, venceu o prêmio de ‘’Artista Revelação’’.
O que ninguém esperava é que essa mesma mulher entregaria a mais preciosa joia do gênero em anos num começo de ano tão conturbado como 2020. ‘’Future Nostalgia’’ é o exemplo mais notório do que um álbum pop, com pitadas de dance/euro/disco, representa para o grande público.
O álbum possui excelentes produtores, mas é preciso destacar que a presença do sempre ótimo Stuart Price é uma peça fundamental para a integridade e coesão do disco, especialmente por torná-lo tão, essencialmente, pop. Price foi o principal produtor de ‘’Confessions on a Dancefloor’’, ‘’Aphrodite’’ e ‘’Night Work’’, grandes projetos de, respectivamente, Madonna, Kylie Minogue e Scissor Sisters. A fortíssima influência do ‘’europop’’, gênero que tem seu nascimento com o ABBA, no novo álbum de Dua Lipa é o que faz o mesmo ser tão especial mesmo em 2020.
O gênero absorve muito dos anos 70 e, especialmente, dos anos 80, berço do nascimento da música pop. Recentemente, tivemos o ‘’E-MO-TION’’ (2015) de Carly Rae Jepsen, e anteriormente ‘’Love.Angel.Music.Baby’’ (2004), debut solo da cantora Gwen Stefani e um dos mais influentes álbuns do gênero nesse século. Não por acaso, Lipa cita Stefani como uma das principais inspirações do álbum. Madonna também é citada como inspiração e não choca, canções como ‘’Don’t Start Now’’ caberiam perfeitamente em álbum de Madonna mesmo nos dias de hoje.
Dua, que assina todas as canções como compositora, dialoga aqui sobre o que podemos esperar de uma jovem em sua idade: amor, sexo e relacionamento, e tudo que vem junto disso. Nem tudo são flores em teu tratamento lírico do assunto e a mesma chega a falar ‘’If you're offended by this song, you're clearly doing something wrong’’, algo muito literal e não-imaginativo para um produto do nível que ela entrega. Porém, um mero detalhe dentro de uma seara de ótimas rimas e metáforas.
A cantora sempre apostou, e acredito ser inerente a mesma, em uma imagem ‘’blasé’’ em seus videoclipes, apresentações e projeção da própria imagem. Aqui isso acaba se transparecendo até mesmo em suas canções, com exceção de ‘’Physical’’, que é extremamente agitada, as demais produções parecem soar até meio ''lounge'', mas sem nunca perder a percepção do que é ouvir uma canção pop na balada. Nisso se destacam ‘’Hallucinate’’ e ‘’Levitating’’, faixas que deixam claro a essência de Dua enquanto artista.
Porém, eu poderia falar das onze faixas apresentadas pela cantora, todas excelentes no fim das contas. Só que sim, será essa essência que permitiu que em pleno 2020 a cantora tenha se afirmado tão forte em não preferir seguir qualquer ‘’moda musical’’, mas sim se expressar com o que realmente gosta que deverá ser o fio condutor de uma carreira cada vez mais criativa, cativante e exuberante, como vem sendo a artista Dua Lipa nesses últimos anos, um dos melhores sopros de ar fresco que a música pop poderia ter recebido.

terça-feira, 28 de maio de 2019

''Rocketman'' - Ou como vestir um terno de um bilhão de cores!


Quando se fala em filmes biográficos, logo vem na cabeça aquela esquematização de criança incompreendida, artista sofrendo pra fazer sucesso, o estouro do mesmo, algum problema que acontece no pico da fama e, finalmente, a catarse com alguma música ou momento importante da carreira. E isso é chato, e extremamente previsível, duas coisas jamais associadas a Elton John quando o mesmo estava no auge. Até por isso, após ver ''Rocketman'', fico extremamente feliz que esse não é o resultado de um projeto que findou muito ousado e, consideravelmente, original.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vingadores: Guerra Infinita


Não sou dos maiores fãs da Marvel e suas produções cinematográficas, mas é inegável que mesmo pasteurizando seus trabalhos para manter o nível, eles foram capazes de - quase - sempre entregar produtos ao menos dignos, nessa nova e grandiosa aventura do maior grupo de heróis do cinema a história não é diferente.

Em ''Vingadores - Guerra Infinita'' tudo que o ''Universo Marvel'' construiu nos cinemas desde sempre culmina numa épica batalha contra o maior dos maiores, Thanos. Aliás, começar esse texto falando de Thanos é algo necessário. Se tem algo que sempre caia por terra nos filmes do universo era a falta de arqui-inimigos dignos dos heróis que os enfrentavam. Em muitas vezes eles eram extremamente genéricos ou uma completa farsa. No caso do tirano intergaláctico, o roteiro revela uma ideologia crível e que percorre uma linha muito tênue entre a indignação e a compreensão para os planos do mesmo. Thanos é a peça central e motriz do filme, sendo explorado da forma mais correta possível pelo roteiro e ancorado por uma performance de captura de movimento/dublagem muito assertiva de Josh Brolin. Impedido de se tornar mais um estereotipo, o grande recebe uma forte dimensionalidade, criando cenas tão bonitas e poderosas quanto todas as que ele divide a tela com Gamora.


Um dos maiores temores com relação ao longa era a quantidade, mesmo que necessária, de heróis que teriam na trama. Será que todos seriam bem utilizados? Soaria como um desperdício? Será que todos brilhariam? Pois então, o resultado final é bastante positivo, na medida do possível. Existem personagens (Viúva Negra, por exemplo) que mal aparecem em cena ou possuem diálogos, mas isso não é um demérito porque até eles conseguem ter momentos marcantes no filme. A dinâmica dos personagens que mais aparecem em tela é um pouco alterada. Enquanto os usuais Homem de Ferro e Thor tomam a dianteira, eles precisam dividir muito o espaço com o Doutor Estranho e os Guardiões da Galáxia. Isso permite que uma nova visão enquanto grupo, devido a inevitável aposentaria dos antigos Vingadores, seja presenciada pelo público, assim como cria uma dinâmica muito bem feita entre todos os personagens que precisam se conectar.

Para isso, o elenco mostra todo o carisma e empatia necessária e que consolidou cada um deles no imaginário pop nos últimos anos. Por mais que eu não aguente mais o Robert Downey, Jr., por exemplo, é inegável que ele É o Homem de Ferro. Se os três Chris (Evans, Hemsworth e Pratt) não são lá excelentes atores, eles se apropriam muito bem das personagens tão cativantes de seus personagens. E assim vai com todo o resto em cena. E esse é um aspecto muito importante para que nós, espectadores, sejam capazes de construir um laço com todos eles e sentir tudo que eles precisam passar, da alegria à tristeza.


O filme, como um todo, tem toda a essência de ''evento'' e ''espetáculo'' que se espera de uma produção desse nível. Grandes e otimamente coreografadas sequências de luta, momentos de puro êxtase (o principal deles pertencendo ao Thor) e também poderosas e emocionantes cenas (Wanda </3) devido a escala de tudo que se desenrola em cena.

Obviamente, nem tudo são flores, e algumas decisões de roteiro soam fáceis, mas como o longa não termina por aqui, veremos como tudo se justifica em sua parte final. Ah, a cena final, se tirada toda e qualquer problemática ''off-screen'', é singela e muito tocante. Um momento raro em meio a tantos murros, tiros e poderes feitos durante toda a projeção, mas que exprime e sintetiza muito do tema, e discurso, empregado pelo filme.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

''Peter Pan - O Musical'' : A Terra do Nunca é bem ali!


''Peter Pan'', famoso personagem criado por J. M. Barrie, está vivo na imaginação popular muito fortemente por causa da animação da Disney dos anos 50. O que muitos não sabem é que sua versão para os palcos, em formato de musical, saiu um ano após o filme e não possui qualquer ligação criativa ou financeira com o filme da produtora do Mickey Mouse. Com música de Mark Charlap e letras de Carolyn Leigh, o musical foi um grande sucesso na Broadway e, comprado pela NBC, se tornou o primeiro a ser passado na televisão americana, em cores!

Em 2018, uma nova versão chega ao Brasil no Teatro Alfa trazendo toda a magia e dinâmica dos trabalhos americanos em uma produção bem acertada que serve como um ótimo entretenimento para toda a família. ''Peter Pan'', em sua essência, é um musical com um foco claramente infantil, e a direção de José Possi Neto não foge disso em momento algum. Porém, o diretor saber preencher o palco, manter atenção e criar momentos suficientes para valer a noite (ou a tarde) no teatro.



Apoiado por um design de cena muito colorido e engajado no aspecto lúdico para fisgar a imaginação infantil, o musical está sempre em movimento mesmo durando quase 90 minutos somente no primeiro ato, tempo que não senti pesar em momento algum na narrativa da peça. Nem tudo nas escolhas estéticas são flores, a utilização do crocodilo soa não efetiva e os cabos segurando os atores estão bem expostos, por exemplo, mas as projeções da Terra do Nunca e a entrada do barco do Capitão Gancho mostram uma sábia escolha visual pelos olhos do diretor em conjunto com seu time técnico. A cena de entrada do segundo ato (''Uga-Uga'') é o auge da peça, durante quase 10 minutos a tribo dos Meninos Perdidos e os Índios fazem um número de dança que é de tirar o folego e aplaudir de pé, totalmente sensacional e que me deixou assim quando o elenco terminou:


A trilha original, convenhamos, não é super memorável, mas a adaptação das letras (por Luciano Andrey e Bianca Tadini, quem também faz a Wendy) são bem fiéis e capazes de entreter, ao menos durante a peça, o público com rimas gostosas de ouvir. Aliás, falando em ouvir, embora tenha um comando de palco muito forte, ao simular uma voz cartunesca, fica difícil entender tudo que sai da boca de Daniel Boaventura. O ator é um excelente Gancho até mesmo quando resolve sair do personagem e brincar, diretamente, com a plateia, mas nem sempre conseguimos entender todas as palavras que ele canta, não que isso realmente afete seu produto final para mim.



O elenco todo é muito interessante, mas é preciso destacar o trabalho que o jovem Mateus Ribeiro, de apenas 24 anos, faz durante toda a peça. Ele canta, dança, pula, gira e encanta toda a plateia com um papel que sempre foi de uma mulher nas produções mundo afora. Porém, não dá para reclamar do que o ator faz aqui, ele se mostra um verdadeiro acrobata em cena com um charme absurdo e carisma para dar e vender. É o tipo de performance que cativa o suficiente para que você queira saber mais sobre o ator, e se nesse ritmo ele seguir, terá uma belíssima carreira pela frente.

Por fim, mesmo com umas, pequenas, decisões que fazem você levantar a sobrancelha, essa versão do musical é um exemplo claro que, mesmo sem querer, qualquer um pode voltar a ser criança um dia, é só liberar um pouco a mente e aproveitar essa jornada para a encantada Terra do Nunca.



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Os (melhores) álbuns de 2017


Não se deixe enganar pela foto acima, não vai ter Arcade Fire na lista de melhores do ano. E não, nem achei o cd ruim como a maioria, ''Everything Now'' é mais uma reinvenção da melhor banda da atualidade que, aparentemente, não foi bem aceita pelos fãs, mas que eu realmente gostei não só da sonoridade, mas da abordagem do consumismo elevado no mundo contemporâneo. Outras voltas após longos hiatos também sofreram com aceitação de crítica e público, entre eles está o novo trabalho de Miley Cyrus, ''Younger Now'', um álbum com uma alma pop, mas uma modelagem do country contemporâneo que no final acaba sendo um bom trabalho por parte de uma das artistas mais interessantes do gênero atualmente, destaco a faixa ''Bad Mood'', uma verdadeira preciosidade. Laura Marling continua com suas histórias contadas em folk com o belíssimo ''Semper Femina'' e o novo cd de Father John Misty, ''Pure Comedy'', conquistou a todos com as letras mais incríveis do ano sobre tantos e diversos temas. Houveram alguns cd's realmente intragáveis no ano como o novo da Katy Perry, ''Witness'', e alguns bem abaixo da média como o último trabalho de Ed Sheeran, ''divide'', mas isso a gente esquece. Nesse post venho publicar meus cd's favoritos do ano, nem sempre os melhores, mas que de alguma forma me fisgaram. E, claramente, o meu gosto pelo vocal feminino continua, como verão na lista abaixo:


10. Margo Price - All American Made: Mais impressionante do que entregar um novo álbum tão rápido após um dos melhores debuts do ano passado, é o fato que Margo Price fez um segundo cd tão ou mais incrível que seu antecessor. Minha queda pela música mais enraizada é sempre maior quando os vocais femininos entram em jogo (Maren Morris, Miranda Lambert, Gretchen Wilson) e com Price não é diferente, o álbum também trata do dia-a-dia de uma mulher no meio country, assim como na sociedade e tem como um dos destaque ''Pay Gap'', o trabalho dentro do álbum com a crítica mais aberta, mas igualmente poderosa sobre a diferença econômica entre homens e mulheres na atualidade.


9. Kelly Clarkson - Meaning of Life: Eu sempre gostei muito da Kelly e mesmo não sendo muito fã de seus últimos cd's de inéditas, o de natal é muito legal, fui de peito aberto para esse novo trabalho e a surpresa foi assim... total! Clarkson sempre gostou de flertar com outros gêneros além do pop (vide suas parceiras country e sua essência pop-rock), mas eu jamais iria imaginar que um álbum dela teria tanta influência soul/r&b como ''Meaning of Life'', um trabalho que reúne os vocais incríveis da cantora com letras profundas e com real sentido da vida adulta. Uma das faixas mais lindas, ''I Don't Think About You'' é a essência do trabalho, desde os acordes da canção até a forma como Kelly canta seus versos. É lindo, é singelo e muito poderoso.


8. The Killers - Wonderful Wonderful: Durante mais de cinco anos desde ''Battle Born'', o não tão bom e também não tão ruim último cd da banda, Brandon Flowers lançou projetos solos e até se saiu bem neles, mas não demora mais que alguns segundos da faixa título para você ter certeza que a singularidade de The Killers é insubstituível. ''Wonderful Wonderful'' serve como um reflexo do próprio vocalista sobre sua vida, ele vai da auto avaliação pessoal na excelente ''The Man'', passa pelo sofrimento da esposa na melancólica ''Some Kind of Love'' e culmina no bloqueio artístico que ronda a qualquer um da classe em ''Have All the Songs Been Written?'' e, provavelmente, esse conceito é o que torna o trabalho tão conciso, bom e viciante. Eu duvido que você ouça ''Run for Cover'' e não agradeça por esse maravilhoso comeback, mas eu duvido mesmo.


7. Björk - Utopia: A rainha da música alternativa retorna com ''Utopia'', que ele seja estranho, diferente e algo difícil de se ouvir é o mínimo que esperamos da islandesa mais incrível desse planeta, mas como eu costumo falar e ler sempre, poucas pessoas escrevem sobre amor como Björk e nesse cd ela faz muito jus a isso, e aqui ela fala não só sobre amor, mas também sobre falta dele, separação e o lado bom de tudo isso, é um trabalho notável, bastante intrigante e que merece uma ouvida só pela ousadia das sinfonias encontradas no álbum. Em uma das músicas, ''Body Memory'', a cantora fala da forma mais alegre que ela encontrou em seu próprio estilo de mostra que ainda tem muita coisa pra viver em uma canção de basicamente dez minutos. É desafiador, é estranho, é inquietante e recompensador, é 100% Björk!


6. St. Vincent - MASSEDUCTION: Confesso que não conheço todos os trabalhos da cantora anteriores ao álbum de 2014 que a levou a um status mais ''mainstream'', mas somente aquele produto foi suficiente para me cativar pela aspecto quase original na abordagem de gêneros já comumente batidos, nessa volta depois de um bom tempo a jovem Anne Clark mergulha totalmente numa pegada eletrônica que identifica muito o cenário atual nos Estados Unidos, mas com aquele toque ''glam'' que só mesmo ela poderia colocar nos dias de hoje. Em primeiro momento parece que Karen O do Yeah Yeah Yeahs decidiu fazer EDM e esquecer um pouco o rock, mas chegar em ''Pills'' para a imagem de St. Vincent estar 100% impregnada na sua mente. O álbum tem seu auge em ''Young Lover'', uma canção que une o melhor do pop, electro e rock com vocais que chamam muito a atenção, é um arraso do começo ao fim, tal qual o cd todo.


 5. Kelela - Take Me Apart: O R&B mais enraizado vem sumindo dos olhos do grande público já tem alguns anos, ficamos sempre a mercê de uma Beyoncé ou uma Rihanna para termos esse som em grande proporção no meio musical, mas é ao ouvir trabalhos como o de Kelela que fica fácil perder que a qualidade do gênero ainda persiste e certas pedras preciosas como ''Take Me Apart'' surgem todos os anos e quase ninguém realmente ouve com a atenção merecida. Eu mesmo ao ouvir o primeiro single da cantora, ''LMK'', não prestei muita atenção e passei batido, mas com ''Blue Light'' a história foi diferente e rapidamente me vi fisgado por um vocal que lembra muito Ciara e Janet Jackson, mas com uma batida mais macia e assuntos mais íntimos. O cd, aliás, após ouvir com atenção e ler um pouco da entrevista da cantora, conta a história de uma mulher, nesse caso negra, que passa por várias etapas de um relacionamento e os problemas gerados após o mesmo. É original? Não, mas quando bem feito, e aqui é muito, é sempre bem vindo. ''Better'' em especial é uma senhora música.


4. Kesha - Rainbow: Admito, nunca fui fã de Kesha, achava ela uma cantora qualquer, sem personalidade, produzida por terceiros e quase inócua no palco, mas após ouvir seu novo trabalho e levar uns bons tapas na cara, tenho que admitir: que álbum incrível é esse, hein? Por muito pouco o ''Rainbow'' não é meu cd pop favorito do ano, é um álbum que traz uma sonoridade totalmente diferente do esperado, mas letras capazes de fazerem com que você lembre bem qual artista se estar ouvindo. É muito difícil decidir qual a melhor faixa do álbum, ele é um acerto a cada canção e coeso em toda a forma como a cantora retrata os últimos anos da sua vida. Ela dialoga com a própria persona, fala com seus demônis, se reafirma enquanto mulher e decide que a vida merece ser muito bem vivida. É uma experiência enriquecedora ouvir o trabalho de mente aberta, a melhor surpresa do ano, sem dúvidas.


3. SZA - Ctrl: Essa cantora de nome difícil pegou todos desprevenidos no ano de 2017, afirmo sem muita dúvida que seu trabalho é o melhor debut do ano e SZA consegue em ''Ctrl'' sintetizar o gênero ''R&B Contemporâneo'' como poucos artistas os fizeram nos últimos anos. Ela utiliza de vocais e lugares líricos comuns para adentrar em uma batida tão atual que ofende a certos cantores presos as melodias da década passada. O trabalho também envolve muito da vida da artista e a sonoridade é consideravelmente linear, um feito e tanto já que o cd jamais se torna monótono e a cada nova faixa, o encantamento só cresce. Embora, ''The Weekend'' seja a melhor faixa do cd, não tenho como não deixar meu destaque para ''Love Galore'' aqui, o R&B não fica muito melhor que isso.


2. Kendrick Lamar: DAMN.: O único homem a entrar na minha lista, Kendrick Lamar é hoje, talvez, o grande artista da atualidade em se tratando de público e crítica, e sei que comparações não são sempre boas, mas é como se ele fosse o Kanye West da década atual. Convenhamos que Lamar soube gerir muito bem seus trabalhos, se no debut ele falava sobre sua vida desde a infância e em ''To Pimp a Butterfly'' ele foca na questão racial como um todo, no ''DAMN.'' ele mistura ambos em um trabalho ainda mais próximo de uma sonoridade popular, mas sem perder um pingo sequer da sua marca, é algo tão inacreditável que só ouvindo os 3 álbuns em sequência para conseguir processar tudo isso. ''Humble'', seu maior hit na carreira, é também uma das melhores músicas do ano, e um exemplo da qualidade irretocável que Lamar conseguiu chegar atualmente, foda.


1. Lorde - Melodrama: Sem surpresas, o meu álbum número 1 do ano é também o de muitos ao redor do planeta, e não tem como falar o quão certo essas pessoas estão. Antes de tudo queria deixar registrado que eu nunca fui muito com a cara da Lorde, não gosto de ''Royals'', não era fã do álbum e sempre achei ela muito ''estranha''. Tudo mudou com seu segundo cd, lembro da mesma reclamando dos fãs apressados por um novo álbum e ela dizendo que precisava de tempo para fazer algo que era verdadeiro para ela, ao ouvir o ''Melodrama'' fico feliz que ela tirou o tempo que quis para entregar esse trabalho, pois ele é um senhor álbum. O som que a neozelandesa já entrega em ''Pure Heroin'' está bem presente aqui, ela somente aprofunda ainda mais os elementos pop e eletrônicos em questão. Lorde escreve muito e escreve bem, aqui ela continua escrevendo para e sobre ela, mas ela reflete os problemas e dilemas de muitos, a ''relatabilidade'' com toda uma geração é absurdamente crível e viável e em nenhuma canção isso soa falso ou vazio, é, aliás, tão real e forte que chega a doer. Outro álbum cheio de pequenas jóias, a grande canção do ano também se encontra aqui, ''Supercut'' fala sobre o quanto as vezes nós queríamos apenas ter como lembrança a melhor parte de nossos relacionamentos, mas não dá, certo? E em um certo momento a jovem cantora chega a gritar por causa disso, é incrível, é indescritível. Sem mais, ''Melodrama'' é uma Obra-prima.

É isso, que venham mais músicas em 2018 <3




quinta-feira, 28 de abril de 2016

REVIEW: Beyoncé - Lemonade



Coesão é a alma de qualquer trabalho e na música isso não é diferente. Todos os grandes álbuns da indústria são coerentes em conceito e execução, sempre abordando temas e trabalho de produção que permeiem o disco do inicio ao fim, qualquer que seja a conexão entre suas faixas. O novo álbum da cantora Beyoncé, ‘’Lemonade’’, não foge da regra e, para quem tinha dúvida, sedimenta a americana como a melhor artista de grande apelo popular do momento.

                O trabalho temático de Beyoncé em um álbum não é novidade. A texana já abordou o amor em diversas formas, como em seu álbum 4 (2011) e explorou ao máximo sua sexualidade em forma de música, em seu primeiro álbum visual, intitulado Beyoncé (2013). Já em Lemonade,  seu sexto trabalho de estúdio,  vemos uma artista que se permitiu ser “espiada” e comentada num dos relacionamentos mais famosos da indústria, o casamento com o rapper Jay-Z. O que se percebe nas doze faixas que compõe o trabalho da cantora é a jornada sobre os estágios do que, aparentemente, foi um momento bastante difícil de seu relacionamento: uma possível traição.

Na primeira faixa do álbum, ‘’Pray You Catch Me’’, vemos o que deve ser o inicio da suspeita do romance extraconjugal de seu marido, onde a cantora começa a expor seus sentimentos.  Em seguida a cantora ‘sobe o tom’, com ‘’Hold Up’’, numa pegada entre o funk e reggae, onde a traição está escancarada e Beyoncé se vê numa situação que aflige a todos, onde a canção diz: ‘’O que é pior, parecer louco ou ciumento?’’. O engraçado é o fato que a faixa segue uma vibe “midtempo”, mesmo falando sobre alguém que está com raiva. 

  

Quando uma canção começa com ‘’Quem p***a você pensa que é? Você não está casado com uma vadia qualquer’’, termina com ‘’Se você tentar essa me**a de novo, você irá perder sua esposa’’ , utilizando o rock de Led Zeppelin como base, a guitarra do sempre ótimo Jack White e vocais, claramente agressivos, você sabe que algo muito forte aconteceu, e isso fica explicito em ‘’Don’t Hurt Yourself’’, um dos destaques do cd.

Qual a primeira fase que você passa após terminar com alguém? Tentar esquecê-la, certo? Em “Sorry”, que não poupa palavrões, atitude no vocal e, as já icônicas frases: ‘’Dedo do meio pra cima, acene pra ele e diga, garoto, tchau’’ e ‘’É melhor ele ligar pra Becky de cabelo bom’’, rola um dos maiores acertos musicais da obra, onde Beyoncé utiliza o trap pra fazer uma canção sobre término e superação do ca***ho. 

Beyoncé tem um grande ego e canta sobre empoderamento feminino desde que surgiu, sendo assim a presença de ‘’6 Inch’’ é esperada e muito bem vinda. A canção é mistura de R&B/Soul/Funk e ainda utiliza dos vocais do cantor The Weeknd para dar a pitada sexy que a música pede. Porém, a utilização de salto alto como forma de empoderar a mulher é algo contestável e controverso, já que pode ser considerado como algo opressor para as mulheres em geral.


 ‘’Daddy Lessons’’ é a meu ver uma das três melhores do álbum simplesmente porque é algo quase inacreditável vindo da rainha do R&B contemporâneo: trata-se de uma música puramente country/americana, em um nível que você chega a imaginar como foi a infância da cantora num Texas, hoje tão distante da imagem que ela transparece. Nesta faixa a cantora expõe o relacionamento com o pai, que organizou toda a sua carreira desde sempre, inclusive até uns anos atrás. Além disso, é perceptível a afinidade da texana com o principal gênero de sua terra natal. Já ‘’Love Drought’’, que talvez tenha a melhor produção de todo o cd, com uma batida que pede pela casa da luz vermelha mais próxima, acaba soando um pouco menos maravilhosa que as demais, mas só um pouco.

                Impossível de julgar separadas, as faixas ‘’Sandcastles’’ e ‘’Forward’’ se complementam ao ponto em que a primeira, uma balada romântica pura e simples, ancorada por vocais que exprimem uma dor absurda, trata da percepção que a relação foi algo importante demais para ambos e que talvez, a separação definitiva fosse uma opção exagerada. Já a segunda, uma curta parceira com James Blake, ouve-se a cantora falando ‘’É hora de ouvir, é hora de lutar’’, o que pode se associar com um momento de conciliação. A situação se vê finalizada em ‘’All Night’’, uma canção que deixa claro que o amor, mesmo que não como antes, ainda persiste e durará por muito tempo, quase como a fase final da história que Beyoncé começou a contar lá na primeira faixa de seu álbum.


                As duas canções mais dissonantes complementam o álbum. ‘’Freedom’’ e ‘’Formation’’, se vê algo que Beyoncé nem sempre cantou: o orgulho de sua negritude e a atenção que a justiça racial até hoje pede. A primeira faixa é quase um hino gospel - claramente a melhor música do cd - onde a cantora clama ‘’Deus me perdoe, eu estive fugindo.... mas me liberte, deixe eu quebrar minhas correntes’’, numa alusão ao que pode ser um total posicionamento a tantas coisas horríveis que ainda acontecem aos afro-americanos no país da ‘’liberdade’’. A faixa conta ainda conta com a participação do rapper Kendrick Lamar, o maior nome da atualidade quando se fala em ativismo racial na música. A última faixa, já famosa, é um hino de empoderamento racial que encerra o álbum de forma efusiva, imperativa e demonstra a que nível Beyoncé chegou enquanto criadora de cultura e arte.

                ‘’Lemonade’’ explora temas, aborda problemas, tem um conceito que reflete a perfeição que já conhecida da artista e uma execução que beira ao brilhantismo. Tanto é que, falar que é o melhor álbum de sua carreira ou do ano, é questão apenas de bom senso. O que a história pode provar é que o álbum será um dos melhores da música contemporânea.  





quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

REVIEW: A Garota Dinamarquesa





Se feito há uns quatro ou cinco anos, ‘A Garota Dinamarquesa' (The Danish Girl, 2015) não teria metade da repercussão que está tendo, porém, como foi lançado em um momento onde a comunidade transexual começa a ganhar cada vez mais voz e brigar por seus direitos na sociedade moderna, o novo filme do diretor Tom Hooper (O Discurso do Rei, Os Miseráveis) ganhou visibilidade, fãs, odiadores e algumas indicações ao Oscar. Entretanto, se enquanto história o filme pode emocionar alguns, como obra de cinema é tão falho que chega até a ofender.

O longa retrata o relacionamento do casal Gerda (Alicia Vikander) e Einar Wegener (Eddie Redmayne), assim como a autodescoberta de Einar em uma mulher transexual, Lili - que viria a ser uma das primeiras pessoas a realizar uma cirurgia de redesignação sexual. A ideia é nobre e a visibilidade da causa transexual até pode se favorecer com a existência do filme, mas tudo é tão raso, plástico e banal, que fica difícil se envolver completamente na mensagem do filme.

O roteiro, talvez por falta de uma ótica melhor, jamais vai além da superfície e estereótipo sobre quem é Lili e nunca deixa Gerda sair do papel de esposa sofredora, mesmo que dê ares de descolada para a época em que vive. Em associação a isso, temos uma montagem que sofre, lá pelo meio do filme, com uma sucessão de cenas feitas para fazer o espectador chorar, sem qualquer sentido de ordem do trabalho que está sendo feito.



Todos esses problemas, lógico, são incrementados com a direção de Tom Hooper, que é altamente cheia de tiques inúteis com a câmera, incluindo enquadramentos que não fazem sentido ou uma inclinação ao sentimentalismo da pior espécie.  Existem momentos que até a belíssima direção de arte e as locações das cidades mais encantadores da Europa sofrem na mão do diretor, que sufoca a tela com close-ups que vão do desnecessário ao constrangedor, demonstrando um apuro visual limitado e quase brega.

A atuação de Eddie Redmayne, atual vencedor do Oscar por A Teoria de Tudo e novamente indicado pelo trabalho feito aqui, acaba sendo a cereja ruim do bolo solado, sendo uma mistura entre correto, ruim e horroroso. Redmayne, mais uma vez, trabalha com um personagem que precisa de muletas cênicas para se concretizar, mas, sendo um ator tão vaidoso, ele escolhe as piores opções para retratar sua ‘’feminilidade’’. Se enquanto Einar o ator até se sustenta, quando Lili precisa vir à tona, a atuação se torna afetadíssima, caricata e toda calcada em tiques como: uma mão quebrada pro lado, um pescoço torto e uma voz sussurrante até quando o personagem fala com alguém a distância.

Porém, nessa imensidão de erros, existe uma luz sueca que atende pelo nome de Alicia Vikander, aqui vale ressaltar também os lindos figurinos de Paco Delgado. A atriz, que é tão protagonista quando Eddie, e está sendo revelada agora para o mundo, toma o filme para si toda vez que aparece em tela, apresentando uma vivacidade e brilho que deixa qualquer ator ofuscado.  Além disso, quando ela precisa dividir a cena com Redmayne chega a ser latente a diferença de naturalidade entre as duas atuações. Mesmo com um papel que em determinado momento se reduz a sofrer pelas mudanças drásticas de sua vida e casamento, Vikander sempre se agarra ao fiapo de roteiro e dá toda a dignidade que pode à Gerda. E se ela realmente é a garota dinamarquesa a que o filme se refere, é de se agradecer, porque todo e qualquer sentimento de conexão com o filme se deve a ela, e somente ela.



O filme pode até ser bem intencionado, mas o produto final não chega nem perto da excitação que poderia ter sido caso bons profissionais estivessem por trás - e em frente - às câmeras.  Como de filme ruim bem intencionado o mundo de Hollywood está cheio, só desejo que no futuro existam produções que realmente dignifiquem a causa transexual, que tanto precisa de visibilidade, porque, infelizmente, ‘A Garota Dinamarquesa’ foi apenas mais um erro no cis-tema.

Uma sequência: O primeiro contato de Einar com o vestido, enquanto pousa para Gerda, onde ainda havia um vislumbre de que o filme poderia ter mais que a dimensão de um pires para com seus personagens.