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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Melhor Atriz 1944 - CasaBergman



O fato mais importante a se dizer aqui é que Ingrid Bergman estava tendo uma carreira meteórica em seu país de origem, Suécia, quando David O. Selznick decidiu produzir um remake de Intermezzo com ela nos EUA. O filme introduziu a atriz para o público americano, e embora o sucesso ou não do filme e de mais outras duas ou três produções com Bergman seja questionável, o fato é que ela deixou uma boa impressão. Em 1943, quatro anos após o seu debut, Bergman viria a lançar dois filmes: ''Casablanca'' e ''Por Quem os Sinos Dobram''. Essa obras firmariam o talento e o star power da atriz em Hollywood. Sendo grande sucesso de bilheteria e na crítica, a indicação de Bergman por ''Casablanca'' era uma certeza, e a vitória era quase.

O que ninguém esperava é que não somente a atriz acabasse indicada por ''Sinos'' (mesmo que também muito aclamada pelo filme), como que ela perdesse a estatueta para as mãos de Jennifer Jones, mesmo com ''Casablanca'' levando ''Melhor Filme''. A sensação de que uma estrela em ascensão tinha sido roubada surgiu ali. Dois meses depois, Bergman lança ''Gaslight'' e sua atuação não só chama atenção do público, mas a crítica a considera totalmente diferente do que a atriz vinha oferecendo até ai. Outras candidatas surgiram, mas nenhuma delas conseguiu bater de frente com Bergman no quesito poder de performance, e até mesmo de superar a sensação de que a atriz já devia ter uma vitória.

Nem mesmo Barbara Stanwyck, em Pacto de Sangue, um filme noir tão popular na época que conseguiu quebrar todas as barreiras de gênero existentes e ser indicado nas principais categorias da noite. Porém, como vimos antes e depois, a Academia possuía um grande preconceito com filmes desse tipo e a indicação acabou sendo a vitória para Stanwyck. Esse mesmo problema evitou a indicação de Gene Tierney por ''Laura'', indicado a Melhor Direção. Outro filme indicado a Melhor Direção foi ''Lifeboat'', mas o aspecto ''mosaico'' do filme impediu que Tallulah Bankhead, que não atuava por mais de uma década, fosse privada de uma indicação que para muitos era certa.

No entanto, foi a esnobada de Judy Garland em Meet Me in St. Louis, e do filme como um todo, que causou o maior furor na categoria. Não só Garland era uma das maiores estrelas de Hollywood, mas o filme foi um arrasa quarteirão de bilheteria, e a atuação de Judy foi considerada um momento de virada da fase infantil para a adulta. A Academia acabou preferindo indicar Bette Davis (''Mr. Skeffington'') e Greer Garson (''Mrs. Parkington'') em veículos cansados, além de Claudette Colbert em ''Since You Went Away'', mas ao menos esse se revelou um forte candidato na corrida como um todo.

No fim, a vitória de Bergman não só foi previsível, como altamente comemorada. O consenso é que nos dias atuais, Stanwyck tem a grande performance da categoria, e uma das maiores do cinema, mas a gente sabe que o Oscar sempre foi meio caranguejo nesse aspecto, sempre andando para trás.

Abaixo, meu ranking dentre as indicadas:


5º Lugar: Bette Davis, Mr. Skeffington (''Vaidosa'')

Davis sempre foi boa atriz, mas esse filme aqui é pra quem diz que um ator se sobrepõe a tudo: a resposta é não. Presa em um fiado de roteiro e sem muito a fazer com uma personagem tão rasa, a atriz sucumbe a escolhas óbvias e que sabemos que ela faz dormindo.

Não é por si só uma performance ruim, mas possuí momentos ruins e, no geral, acaba sendo imemorável. Para não falar que é só coisa negativa, a reta final do filme, mesmo com Davis cheia de maquiagem, acaba trazendo os poucos bons momentos da performance como um todo.


4º Lugar: Claudette Colbert, Since You Went Away (''Desde Que Partiste'')

Embora tenha crescido em mim de forma considerável desde que assisti, essa atuação da sempre ótima Colbert acaba morrendo nesse aspecto de estar sempre bem, mas nunca ir além. Aliás, a cena da foto em questão eleva a atriz para além da mediocridade, mas nada digno de nota o suficiente para estar indicada entre as 5 grandes atuações do ano.

E para completar, a atriz precisa dividir a cena com Jennifer Jones, com um papel melhor, e que resulta em uma atuação também superior a de Colbert.


3º Lugar: Greer Garson, Mrs. Parkington (''Mrs. Parkington, A Mulher Inspiração)

Talvez a minha maior surpresa da categoria, visto que acho Garson uma atriz pouco inspirada e essa mania de só fazer mulher guerreira é de tirar a paciência de qualquer um.

Porém, o melhor do filme e a atuação acaba sendo essa espécie de montanha-russa de emoções que Susie passa durante toda a película. Ela vive diversos estágios da vida, e sabe explorar uma verdade e, até, pureza em cada um desses sentimentos. Não é uma atuação superlativa, mas é muito bonita, competente e com lampejos acima da média, o que é mais do que posso falar de Davis e Colbert.


2º Lugar: Ingrid Bergman, Gaslight (''À Meia Luz'')

Falem o que quiser de Bergman não ter merecido essa estatueta pela concorrência estabelecida por Stanwyck, mas não é possível negar que a ambientação do diretor George Cukor agregado a uma personagem muito bem delineada acaba abrindo espaço para que a atriz deite e role num papel, genuinamente, poderoso.

Nada paga ver a total espiral que começa a se criar no rosto de Bergman a medida que ela vai enlouquecendo. É um tipo de atuação que caracteriza muito o cinema daquela época, evocativo dos palcos e com muita grandeza sem nunca ter medo de ser grande. É totalmente calcada no melodrama, e acaba sendo um sucesso por fazer isso com maestria. As cenas finais do filme são um vislumbre fortíssimo do que acabamos de viver, o rosto de Ingrid está quase cansado de tanto sofrer, mas é sempre cativante o suficiente para nos manter com ela até o final.


1º Lugar: Barbara Stanwyck, Double Indemnity (''Pacto de Sangue'')

Como poderia ser outra? Testemunhar Stanwyck como Phyllis Dietrichson é como estar sentindo a magia do cinema pela primeira vez. Porque é isso que ela é, Barbara aqui é uma parte do cinema, é muita coisa dentro de uma só. É uma performance seminal, que viria para criar um arquétipo utilizado até hoje.

Percebam, mesmo sem estar no filme por todo o frame, é como se Stanwyck nunca saísse de tela, não só pela personagem se perpetuar em todas as ações, mas é como se ela entendesse tudo que Wilder estava propondo em cena. É hipnotizante e muito inteligente, especialmente se você levar em consideração que o filme tem quase 80 anos. A forma dissimulada com que Stanwyck já brincava em ''Baby Face'', mas aqui faz um estrago é um dos motivos pelo qual atuar é, acima de tudo, saber brincar. E nessa brincadeira, poucas pessoas se divertem tanto quanto Stanwyck.

MAS,
E se eu pudesse indicar alguém?


Judy Garland, Meet Me in St. Louis (''Agora Seremos Felizes'')

Sem dúvidas, é a grande atuação de 44 esnobada pelo Oscar. Não só é atemporal em sua construção do coming of age da personagem estabelecida ali, mas porque existe algo de muito palpável na forma como Garland vai percebendo seu mundo mudar, de forma exteriorizada ou não, e que ela precisa agir sobre isso.

E uma performance que tem não um, nem dois, mas três números musicais do impacto de Garland aqui, já fala por si só o nível que carregar. ''Have Yourself a Merry Little Christmas'' é absurda, e um testemunho cabal da força de Garland através do seu dom musical. Ah, o filme é um clássico.


Tallulah Bankhead, Lifeboat (''Um Barco e Nove Destinos'')

Na linha de filmes melhores e com atuações mais inspiradas do que as indicadas, ''Lifeboat'' e Bankhead entram com folga. De cara, você acha que o filme irá focar somente na personagem de Tallulah, mas ele claramente se torna um mosaico cinematográfico, onde cada personagem tem seu destaque.

Isso seria um demérito para qualquer outra atriz desinteressante, mas não é o caso de Bankhead. Eu até admito que sua Connie Porter é algo que eu, pessoalmente, gosto muito em cena, mas as tiradas, a língua de chicote e a presença cênica da atriz é algo que não se pode atacar. Mesmo quando ela não é o centro das atenções, você acaba buscando ver como ela reage ao todo. E até pela diferença com que Tallulah aborda o papel, sem qualquer julgamento, essa performance já é acima da média por si só.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Melhor Atriz 1934 - Uma Escândalo Aconteceu Naquela Noite


Algumas coisas precisam ser colocadas em perspectivas ao falar de 1934. Primeiro, esse foi o ano que o Sindicato de Atores (assim como outros sindicatos) tiveram um enorme crescimento na indústria, isso acabou colidindo com as visões do então presidente da Academia, Theodore Reed, e criou uma tensão forte, levando a perda de muitos membros. Na verdade, na votação desse ano a Academia tinha pouco mais de 100 membros, todos ligados a grandes estúdio, e por conta disso, totalmente influenciáveis. 

Esse também foi o ano que o ''Código Hayes'' entrou em vigor, criando censura em diversos tópicos que Hollywood começava a tocar em seus filmes. Esses dois tópicos acabaram afetando filmes da corrida, como, por exemplo, ''Queen Christina'' de Greta Garbo. Louis B. Mayer, chefe da MGM na época, estava as turras com Garbo, especialmente por ela não ter permitido a demissão de John Gilbert do filme, um ator que Mayer odiava. Isso fez com que ele lançasse o filme muito cedo e não desse qualquer apoio a uma das atuações mais elogiadas dessa lenda da telona. 

A Life escreveu que o trabalho de Bette Davis em ''Of Human Bondage'' era ''a melhor atuação registrada em vídeo de uma atriz americana até então''. Para muitos, Davis iria vencer o Oscar. Porém, Jack Warner (chefe da Warner Bros.) não queria fazer campanha para Davis por ela ser contratada da Warner, mas o filme ser da RKO, e a RKO não quis fazer o mesmo justamente pelo efeito diverso. Isso levou a um choque no dia das indicações quando Davis foi esnobada. O buzz negativo foi tão forte, que apoiadores como a indicada Norma Shearer pediram para a situação não ser deixada de lado. A Academia permitiu então que os votantes pudessem incluir quaisquer nomes que fossem em seus ballots finais.

Com tudo isso acontecendo, a americana Claudette Colbert, a grande estrela daquele ano, não tinha um, nem dois, mas três filme entre os indicados. Colbert tinha odiado ser atriz do cinema mudo por ''não ter falas para memorizar'', então preferiu ficar na Broadway por anos, até a grande Depressão atacar os palcos nova iorquinos. Dando uma nova chance a telona, ela teve inúmeros hits, foi uma das atrizes mais badaladas e bem pagas do mundo, e sempre desafiou os códigos sociais de sua época. Naquele ano, ela achou que não tinha chances de Bette perder após tanta falação pela atuação e esnobada, então ela preferiu ir para Nova York. Na estação ela foi parada, ela tinha vencido. A atriz correu para receber o prêmio das mãos de uma jovem Shirley Temple e falou que ''eu adoraria chorar agora, mas não posso porque tem um táxi me esperando e eu preciso ir para Nova York''. ''Aconteceu Naquela Noite'' foi o primeiro filme a vencer Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro, apenas outros 2 (''Um Estranho no Ninho'' e ''O Silêncio dos Inocentes) conseguiriam tal feito.

As outras indicadas, Grace Moore (''One Night of Love'') e Norma Shearer (''The Barretts of Wimpole Street'') eram esperadas, especialmente Moore em um dos grandes hits do ano, mas nunca tiveram chance de vencer.

Abaixo, meu ranking e alternativas para o ano: 


3º Lugar: Grace Moore, One Night of Love (''Uma Noite de Amor'')

Moore não era, exatamente, uma atriz. Ela foi uma das mais importantes sopranos que a ópera moderna possuiu, com isso acabou se aventurando no teatro musical e no cinema. Ao ver ''Noite'', isso fica bem claro. É óbvio que Moore não passa nenhuma vergonha, mas seu trunfo está em sua voz, e o diretor criar inúmeros momentos musicais para ficarmos encantado com o talento de Grace.

No entanto, são as cenas não musicadas que mostram uma pessoa tentando se encontrar, mas dado a leveza do assunto, isso nunca se torna um grande problema para Moore. Especialmente, por ser muito carismática com a câmera. É uma atuação bem baseada no ''star quality'' e na voz, o que não é um problema, mas impossibilita dela estar mais acima no ranking.


2º Lugar: Norma Shearer, The Barretts of Wimpole Street (''A Família Barrett'')

Shearer é uma das principais atrizes do começo do século XX no cinema, aqui ela se vê em uma personagem até interessante, mas com falhas de roteiro e um filme que não a ajuda em nada. A forma como ela encara a Elizabeth Barrett é muito digna, sempre tentando evitar se depreciar graças a uma deficiência da personagem. Ela acaba por conferir estofo aos infinitos diálogos do roteiro e cria uma aura bem valente de uma mulher quase a deriva.

Infelizmente, a falta de imaginação de seu filme é crucial para você não conseguir ir além com Norma, mesmo que ela tente fortemente, incluindo uma belíssima cena com seu amado. O saldo final é positivo para Norma, mas negativo para o todo.


1º Lugar: Claudette Colbert, It Happened One Night ("Aconteceu Naquela Noite'')

O que Colbert concebe aqui é a definição de seminal. Se ''Noite'' é o esqueleto do que viriam a ser todas as demais comédias românticas, o que Colbert entrega é o que todas as atrizes que fazem o gênero performam até hoje. Existe uma graça e carisma muito intrínseca a forma que ela constrói sua Ellie, e é uma escolha muito pontual numa escala de progressão para entender o filme como um todo.

O mais legal de sua atuação é como Colbert consegue se manter bastante sútil em momentos bem cruciais, mas não tem medo do ''grande'' quando lhe é necessário. Esses momentos podem ser notados em cenas como a da carona ou, a minha favorita, quando ela e Gable fingem ser um casal. É uma mistura de comédia física e graça, mas sem se datar e com muita força no que a própria personagem representa. Uma aula, de fato.

M A S,
Se eu pudesse trocar Moore e Shearer por outras, quem deveria ter entrado?


Bette Davis, Of Human Bondage (''Escravos do Desejo'')

É imprescindível dizer que o ultraje da esnobada de Davis foi necessário. O que mais chama atenção nessa atuação é a completa entrega, sem qualquer resquício de glamour, que Bette dá a sua personagem. Um ser humano dúbio, muito diferente do que se esperava da época, mas que é capaz de ser crível através do trabalho de Bette.

Sua grande cena, a do gif acima, é um maravilhoso exemplo da naturalidade que o cinema americano tão deseja hoje. Óbvio, é exagerado, mas você sempre o ódio transpassando cada osso de Davis, e essa sensação de desprezo tornam tudo muito palpável e chocante. Uma atuação para uma vida toda.


Marlene Dietrich, The Scarlet Empress (''A Imperatriz Vermelha'')

Dietrich nunca foi tão apreciada como devia pelo Oscar, e essa atuação mostra bem isso. Uma atriz que sempre escolheu papéis ousados, o seu trabalho aqui é uma jornada bem delineada, você consegue ver a jovem Sophie se tornar a majestosa Catherine II com um trabalho muito bem feito de Marlene. Ela vai desde a impostação de seu corpo até a forma como suas feições ganham força.

Quando você alia isso a um filme, claramente o melhor daquele ano que eu vi, que sabe como tratar sua personagem, o que resulta é uma performance poderosa, com muitas nuances e calcada em uma composição certeira. A transição para Catherine é, mesmo sem querer, responsável por um impacto muito forte no espectador.


Greta Garbo, Queen Christina (''Rainha Christina'')

Garbo não foi uma das mais poderosas atrizes do cinema por acaso. Seus traços são impossíveis de esquecer, e em uma performance que demanda presença cênica, ela entrega tudo isso e muito mais. É um caso de magnetismo mesmo, quando a essência da atriz completa a personagem e torna tudo muito poderoso. De alguma forma, Garbo é maior que seu filme.

Porém, ela ajuda a completá-lo com muito primor. E quando existem cenas mais dramáticas, que realmente demandam da atriz, a gente percebe que ela não foi somente uma das maiores estrelas, mas também uma estupenda atriz.

domingo, 27 de junho de 2021

Melhor Atriz 1994 - Uma Vitória de 3 Anos Atrás


Nem todos que associam Jessica Lange as séries de Ryan Murphy nos dias atuais sabem do seu passado como uma das maiores atrizes da década de 80. Em uma década que sedimentou nomes como Meryl Streep, Sigourney Weaver e Glenn Close, Lange foi responsável por explicitar algo que nem todas ousaram em sua carreira, seu sexo. A sexualidade de suas personagens sempre foi algo marcante em Lange, foi assim quando (re)surgiu com ''Frances'' e ela sempre trabalhou essa persona sem medos. Com uma vitória em coadjuvante de pouco mais de uma década antes, a atriz acumulava quatro indicações na categoria principal e um status irretocável perto dos seus 45 anos de idade.

Essa, aparente, inadimplência do Oscar com ela não poderia ter sido resolvida em um ano melhor. A atriz gravou ''Blue Sky'' em 1990, o filme foi completado e seria lançado no ano seguinte (o mesmo de ''O Silêncio dos Inocentes''), mas com a falência da distribuidora do longa (que também distribuiu ''Inocentes'' meses antes de declarar falência), acabou engavetado. Três longos anos depois, nem tudo estava perdido e o filme foi lançado. Foi um estouro na crítica, foi notado como ela estava totalmente entregue a personagem, falaram ser a grande performance da carreira e que evocava os grandes sex symbols de Hollywood. Até ali, não havia concorrência para Lange. Aliás, a performance de Jennifer Jason Leigh como Dorothy Parker em ''Mrs. Parker and the Vicious Circle'' tinha agitado a crítica, mas a recepção do público tinha sido fria.

A competição de Jessica Lange ''chegaria'' no fim da corrida, mas elas nunca aconteceram de verdade. Jodie Foster foi completamente aclamada por ''Nell'', e uma Winona Ryder iluminada em ''Little Women'' entrava forte na conversa pela possibilidade de seu filme entrar nas principais categorias da noite. As três foram indicadas, e além delas, também entraram Miranda Richardson (''Tom & Viv'') por um filme tão pequeno que nem os familiares da atriz devem ter visto (mas que a fez vencer o cobiçado ''National Board of Review'') e Susan Sarandon (''The Client'') por um thriller de verão que foi mais longe do que qualquer pessoa jamais imaginou.

Entre as esnobadas do ano se destacam a própria Jason Leigh, vencedora de vários prêmios da crítica e indicada ao Globo de Ouro, assim como Meryl Streep (sim, ela!) por ''The River Wild'', que chegou a indicar a atriz no SAG Awards e nos Globos. Porém, a grande história daquele ano foi a ''esnobada'' de Linda Fiorentino por ''The Last Seduction''. O filme foi lançado nos cinemas em outubro de 94, mas a HBO tinha exibido o mesmo alguns meses antes da televisão, e pelas regras da academia, isso tornaria o filme inelegível em qualquer categoria do Oscar. A crítica, e até a indústria, caiu de amores por Fiorentino, a produtora e a distribuidora do filme tentaram processar a Academia, mas nada foi feito.

Na noite do Oscar, não tinha para onde correr. Foster jamais venceria um terceiro Oscar - protagonista! - em um espaço de sete anos. E o filme de Ryder nunca aconteceu em Filme/Diretor. Quando você junta as críticas de uma carreira, o fator sentimental pelo engavetamento do filme e a quinta indicação em Melhor Atriz sem vitória, não é difícil entender porque foi Jessica Lange a subir naquele pódio.

Abaixo, meu ranking:


5º Lugar: Susan Sarandon, The Client (''O Cliente'')

Esse filme deve ter arrasado muito nas locadoras dos anos 90, é um ‘’drama judicial/policial’’ muito comum e característico dessa época. É de bom tom em 2021? Não tanto. Pouca coisa engaja de verdade e, querendo ou não, o foco do filme é muito mais no menino, o jovem Brad Renfro. Susan Sarandon faz sua advogada, tem um considerável tempo de tela e tenta entregar o máximo nesse espaço concedido a ela.

Não sou o maior fã do sotaque que ela faz no filme, mas entendo a caracterização e não acho, como um todo, ruim. Porém, não dá para colocá-la em nenhuma posição acima quando sua personagem não a deixa brilhar como veríamos em corridas anteriores e posteriores a essa. É um trabalho maduro, bem feito e respeitoso de uma atriz já muito versada na indústria, mas que tirando uma cena aqui ou ali, não tem o brilho que a mesma merece e mostrou em outros momentos da carreira.


4º Lugar: Winona Ryder, Little Women (''Adoráveis Mulheres'')

Quantas vezes ainda veremos adaptações de ‘’Little Women’’? Acredito que inúmeras mais. Aqui, em uma das boas versões, eu sinto que Ryder é a estrutura que segura o todo. O elenco coadjuvante trabalha perifericamente para que possamos entender aquele meio e o trabalho técnico do filme nos adentra ainda mais para aquele mundo.

Porém, os questionamentos de Jo só são palpáveis porque mesmo quando ela recusa uma proposta irrecusável, a gente entende que aquilo é feito com verdade e, também, com pesar. E poucas atrizes na década de 90 conseguiriam criar essa ligação e dinamismo com o público como Ryder. Ela é exuberante em cena, trazendo uma essência ‘’tomboy’’ ao personagem que é muito necessária, além de um carisma/’’star quality’’ que encaixa perfeitamente com Jo. É bem latente o motivo da popularidade de Winona e poucos filmes mostram isso tão bem quanto ‘’Little Women’’.


3º Lugar: Jessica Lange, Blue Sky (''Céu Azul'')

Como citei, poucas atrizes ousaram trabalhar a sexualidade em cena como Jessica Lange em sua carreira. Logo, uma das poucas alegrias desse Oscar é poder ver essa mulher entregar tudo em uma personagem que vive o sexo a flor da pele. A personagem pode ser, às vezes, pouco dimensionada e o filme em si nunca está acima da mediocridade, mas Lange se agarra a Carly com unhas e dentes, desde a primeira cena, e nunca olha para trás. 

E se isso pode ser caso de demérito em outros longas, aqui é o que faz o filme funcionar em algum nível. É como se a Jessica Lange de ‘’Frances’’ estivesse vivendo uma outra fantasia. E por esse aspecto fantasioso, a atuação nunca me soa como exagerada, por que tudo me leva a crer naquela ilusão. Com um filme decente, Lange poderia ter voado altíssimo, aqui ela só faz um voo raso, mas ainda o suficiente para lembrarmos a atriz que ela é.


2º Lugar: Miranda Richardson, Tom & Viv (idem)

Miranda Richardson surgiu igual a Jessica Chastain, celebrada em inúmeros filmes no mesmo ano e culminando em uma indicação ao Oscar em atriz coadjuvante, no caso dela por ‘’Perdas e Danos’’. Dois anos depois, ela retorna ao Oscar, agora na categoria principal, nessa adaptação de uma peça sobre Vivienne Haigh-Wood, a primeira esposa do laureado poeta T.S. Eliot. Richardson é uma atriz de considerável charme, sua presença em cena é sempre notável, e muito cativante. Aqui isso não é diferente, nós não sabemos de cara o que torna Viv uma pessoa única, mas à medida que vamos descobrindo mais, começamos a nos compadecer de uma mulher culpada pelo seu próprio tempo. 

Nesse espectro, a forma ‘’lúdica’’ que Richardson vai levando Viv acaba se tornando uma arma muito inteligente. Você até pensa, por alguns segundos, que ela está acima do tom, mas logo em seguida você entende o rompante que aconteceu ali e tudo se justifica. E por traçar a vida dessa mulher por tantas décadas, Miranda fica com esse segundo lugar por nunca permitir que Viv perca sua ''alma'', dando todas as camadas possíveis a essa mulher, mesmo quando o roteiro ameaça ser tão raso quanto um pires.


1º Lugar: Jodie Foster, Nell (idem)

A melhor coisa sobre Jodie Foster em ‘’Nell’ é poder constatar que, mais duas décadas depois, você assiste o filme e compreende todo o amor e respeito que a atriz tem pela personagem. Uma atriz menos experiente teria transformado Nell em um show de horrores, criando uma atuação caricata e vaidosa, mas nunca é o caso de Foster. Desde o nosso primeiro encontro com Nell, até sua última cena, o que vemos é uma jornada de descobrimento. 

Para Nell, são pessoas e um mundo que ela nunca viu, para nós é normalizar o diferente retratado em um ser. E essa humanização da personagem, em uma atuação muito bem fundada em um belíssimo trabalho corporal, que me chama atenção. É difícil um ator no cinema se preocupar tanto com o corpo em uma mídia que adora filmar do pescoço para cima, mas é irrepreensível compreender e executar o todo, aqui brilhantemente, para dar vida a Nell. Nesse ponto, mesmo que o filme seja chatinho, a atuação de Foster é sempre um primor.

M A S...

Como eu acho esse ano fraquíssimo, fiz um top 5 pessoal dentre as possíveis indicadas aquele ano. São elas:


Kathleen Turner, Serial Mom (''Mamãe é de Morte'')

A primeira informação que um estudante de atuação recebe é que atuar é brincar, só ou com outros. E não tem ninguém esse ano que se divertiu mais que Turner nessa comédia satírica de John Walters. A atriz vive uma mãe que vai surtando e matando a torto e a direito. É uma atuação mega ''over the top'', mas que super combina com o filme e diverte como poucas.

A inclusão numa lista pessoal é, especialmente, por não ser algo normalmente reconhecido, mas que existe um claro trabalho da atriz em questão. É, acima de tudo, uma atuação precisa e inteligente, porque para se tornar algo sem graça e repetitivo seria um triz, mas ela nunca deixa isso acontecer.


Isabelle Adjani, La Reine Margot (''A Rainha Margot'')

Em um filme turbulento, a qualidade maior de Adjani é se manter magnética em cena. É difícil, por si só, não se fixar num dos rostos mais irretocáveis a dar a graça ao cinema, mas existe uma característica muito viciante na forma como Adjani vai dando corpo a Margot. Ela começa de forma submissa, mas vai crescendo até se apoderar de tudo que está ali. É uma atuação bem consciente do filme que a rodeia, e funciona em vários níveis. As suas cenas finais são um estouro, totalmente entregue e sem medo algum de ser feliz. Maravilhosa.


Melanie Lynskey e Kate Winslet, Heavenly Creatures (''Almas Gêmeas'')

Olha, eu até gostaria de dividir ambas pelo bem da individualidade artística, mas acho até injusto com elas. Suas atuações são concomitantes, seja entre si ou com o próprio filme. O diretor, Peter Jackson, exige que você voe um pouco para contar aquela história, permear aquele mundo. E isso não seria possível se cada uma das duas fenomenais jovens atrizes não se comprometessem a acreditar nisso mais do que qualquer outra pessoa. É um jogo de se alimentar, Lynskey e Winslet vão sugando a sanidade, a alegria, tristeza ou o quer que seja e criam algo imprescindível de se assistir.

Eu posso dizer que, em um pequeno nível, acho Lynskey superior a Winslet, mas acredito que isso está mais ligado a minha pouca exposição ao trabalho de Melanie durante sua carreira. No fim, são atuações que não são concebíveis como as primeiras em filmes de suas atrizes, tamanha é a maturidade com que elas chegam em suas personagens. Trabalho de mestre, de verdade.


Jennifer Jason Leigh, Mrs. Parker and the Vicious Circle (''O Círculo do Vício'')

Eu consigo traçar um paralelo bem legal entre Leigh e Richardson nesse ano. Não só por fazerem mulheres de época com cabelos curtos, mas porque elas se aproximam de suas personagens pelo sútil. Existe algo de muito bonito em ver Jason Leigh encontrar uma melancolia necessária para Parker. Não é só tristeza pura e simples, é algo que paira no ar. A câmera corta para Parker e você sente, através dela, essa sensação de se perder na vida.

E, digo isso sem dúvidas, poucas atrizes tem esse tipo de conexão com esse sentimento como Leigh. Uma atriz que sempre tratou de lidar com mulheres em seu fracasso, ela compreende a derrota e essa linha tênue como ninguém. É uma atuação bem contida, mas muito pesada e poderosa.


Julianne Moore, Vanya on 42nd Street (''Tio Vanya em Nova York'')

Julianne Moore tem que ser uma das maiores atrizes do cinema, só na década de 90 essa mulher tem umas cinco atuações inatacáveis, mas essa eu não conhecia e foi uma surpresa linda demais. Moore faz aqui um tipo de atuação híbrida, ela precisa atuar para câmera, mas está fazendo uma personagem atuando no teatro. Difícil só de conceber, imagina de concretizar.

Porém, uma atriz boa mesmo consegue fazer esse trabalho de linguagem com muita maestria. Ela tenta unificar o pequeno com o estouro. Sem nunca ter medo ou vergonha, os closes ajudam a trazer a nota aquelas micro expressões tão fortes na telona, mas ela se deixa inundar pelo texto de Chekhov para expressar o grande que ele oferece. Proprietária de alguns incríveis monólogos em cena, essa atuação é para se ver e rever sempre, uma aula.

domingo, 30 de maio de 2021

Melhor Atriz 1941 - Que vença a melhor Irmã!

 


É quase impossível falar de Joan Fontaine sem citar a sua irmã Olivia de Havilland. Com menos de dois anos de diferença entre o nascimento das duas, esse também foi o tempo que demorou para Fontaine entrar na indústria após a irmã. Para evitar ainda mais comparações, e aconselhada pela própria Olivia, Joan mudou seu sobrenome para Fontaine. Sempre com uma aparência frágil, Joan acabou se soterrando de papéis brandos que não a acrescentavam em nada, chegou a lançar cinco filmes em um mesmo ano.

Porém, foi se aproveitando dessas mesmas características que ela bateu Vivien Leigh, Susan Hayward e a própria irmã (entre outras!) para o cobiçado debut de Alfred Hitchcock no cinema americano, o clássico ''Rebecca'' (1940). O filme venceu a categoria máxima, mas Fontaine ficou apenas com a indicação. Mesmo após esse sucesso, Hitchock hesitou em escalar a atriz para seu novo filme, ''Suspicion'', o desejo dele era trazer a lendária atriz francesa Michèle Morgan para Hollywood, mas o hype de Fontaine estava alto demais, e ela acabou conseguindo o papel.

Na noite da premiação, poucos meses após o Japão (país que as duas irmãs nasceram) ter bombardeado Pearl Harbor, a atriz preferiu ficar em casa para se precaver. Olivia de Havilland, também indicada naquela noite por ''Hold Back the Dawn'', achou a atitude pavorosa, ligou para a irmã e insistiu que a mesma viesse para a cerimônia. Num ano que o dress code envolvia simplicidade por causa da guerra, Joan chegou num vestidinho preto que chamou bastante atenção. Na hora de sua vitória, ela afirma ter ficado paralisada ao vencer, que achou errado ganhar antes da irmã, que tinha muito mais garra na carreira que ela. Olivia teria gritado ''Nós vencemos!'', mas no discurso não houve qualquer sinal de agradecimento para a irmã da parte de Joan. O relacionamento das duas foi alvo de fofoca até o fim dos dias de ambas, muito se sabe que por décadas elas ainda se falaram, mas após os anos 70, com o falecimento da mãe, elas pouco devem ter se visto. Na história do Oscar, elas permanecem como as únicas irmãs a ganharem a categoria de Melhor Atriz.

É altamente aceito que essa vitória de Fontaine veio como um prêmio de consolação após perder por ''Rebecca'' no ano anterior. A outra ''favorita'' da noite era Bette Davis por seu papel em ''The Little Foxes'', a atriz tinha sido presidente da Academia uns meses antes e fez um bom lobby pela vitória, mas tendo vencido duas vezes bem recente, a atriz saiu sem nada. Aliás, não só ela, o próprio filme teve o recorde da época de mais derrota, nove. As outras indicadas: Greer Garson em ''Blossoms in the Dust'' e Barbara Stanwyck em ''Ball of Fire'', nenhuma das duas teve muita chance, e em um ano bem fechadinho, não existiu uma grande esnobada. A mais próxima disso? Vivien Leigh em ''That Hamilton Woman'' em uma atuação elogiada num filme que conseguiu 4 indicações ao Oscar.

Agora ao que importa, segue o meu ranking:


5º Lugar: Olivia de Havilland, Hold Back the Dawn (''A Porta de Ouro'')

Tendo visto todas as indicações de Mrs. de Havilland, essa é, facilmente, a sua indicação mais fraca. A trama envolve um gigolô romeno tentando um green card para morar no US através de um casamento com uma professora que não faz ideia do golpe. Embora bem intencionada, as limitações do roteiro acabam minando Olivia enquanto atriz.

É um trabalho bem feito, afinal a atriz sempre foi muito profissional, mas mantendo a personagem no escuro por tempo demais e focando bastante no personagem de Charles Boyer, fica dificil para Olivia realmente brilhar. No fim do filme existe um lapso do que poderia ser a atuação de Olivia se tivessem feito outras escolhas para o roteiro, mas ai é tarde demais.


4º Lugar: Greer Garson, Blossoms in the Dust (''Flores do Pó'')

Garson deve ser a atriz mais indicada com menos legado da história da Academia. São sete indicações durante a carreira, com direito a uma vitória, mas pouco se fala da atriz nos dias atuais. Acredito que um dos motivos é o excesso de boas samaritanas feitas pela mulher ao longo da vida. São papéis bem intencionados, com direito a um grande momento, mas que acabam por serem desinteressantes vistos décadas depois. 

Aqui, advogando pelas crianças órfãs não serem marginalizadas pela sociedade, a atriz encarna com muita sobriedade a situação de Edna Gladney. É fácil acreditar que na moral que a personagem possuí através de Garson, mas durante quase toda a projeção, isso nunca se altera. A coloquei acima de Olivia por possuir uma cena no tribunal com muita entrega e verdade sobre o caso como um todo.


3º Lugar: Joan Fontaine, Suspicion (''Suspeita'')

Embora nunca no nível de sua performance anterior, acho de muita injustiça taxar Fontaine como uma má vencedora da categoria. Ela poderia, facilmente, ser a segunda colocada desse ranking, para falar a verdade. 

O mais interessante de Fontaine é que você consegue traçar um paralelo com a performance da irmã. Enquanto Olivia fica presa em uma só ''nuance'' durante todo o filme, Fontaine pode ter uma crescente em sua atuação. Quanto mais a personagem vai desconfiando de tudo, mais a atriz pode se mostrar em pequenos temores. A face de Joan começa a ser um tipo de compasso para o espectador, se ela sente medo, você também sente, se ela duvida, você também. É uma atuação muito bem calculada, executada e, mesmo após anos, ainda causa impacto.


2º Lugar: Barbara Stanwyck, Ball of Fire (''Bola de Fogo'')

Stanwyck é a prova moral que Oscar não mantém ninguém na posteridade, mas sim as escolhas que você faz na carreira. Uma das atrizes mais versáteis da velha Hollywood, aqui ela entrega carisma, alegria e verdade para toda a plateia.

A verdade é que o faz ela se destacar é estar em uma comédia em meio a tantos dramas. Não tem um momento sequer do filme que Stanwyck não esteja se divertindo em cena, é um tipo de presença magnética com a câmera que não se aprende, apenas se nasce. A personagem tem suas questões e enfrente um dilema muito legal no último ato do filme, conferindo ainda mais dimensionalidade para Barbara brincar. É uma atuação tão, fortemente, efusiva que é difícil de se ignorar. Um acerto do inicio ao fim. 

E, no mesmo ano, em uma atuação ainda melhor. Stanwyck entrega mais uma desempenho cômico de altíssimo nível em The Lady Eve. Sensacional, não é mesmo?


1º Lugar: Bette Davis, The Little Foxes (''Pérfida'')

Finalmente tenho a lendária Bette Davis em meu primeiro lugar, já não era sem tempo e com essa atuação era impossível escolher qualquer outra. É quase impossível imaginar que foi Tallulah Bankhead que originou o papel de Regina na Broadway, tamanho é a assimilação entre Davis e a matriarca da família Giddens. Tendo que lidar com um mundo machista, que inclui um marido incompetente, a personagem tem todos os aspectos que fizeram de Davis a lenda que ela é hoje.

Existe uma mistura de sordidez e rancor na forma como Regina é concebida por Davis que é, no mínimo, cativante demais. É muito diferente dos arquétipos de época, é um tipo de construção no detalhe. De uma certa forma existe um ressentimento pela situação que a personagem se encontra no filme, e tudo isso se traduz em Bette a medida que vamos vendo até que ponto ela consegue ir em busca de seus objetivos. E é nisso que temos a cena da escada, onde Bette Davis está, basicamente, imóvel e mesmo assim transmite todo o mundo que percorre a cabeça de Regina naquele momento. É brilhante, como tudo que diz respeito a performance.

PORÉM, se eu fosse fazer um top daquele ano, incluiria também essas atuações:


Joan Crawford, A Woman's Face (''Um Rosto de Mulher'')

Numa das atuações mais reveladoras de Crawford, a atriz resolve fazer uma mulher desfigurada e mergulha numa belíssima espiral de emoções, que acompanham o espectador e fazem o mesmo torcer por ela, mesmo ela tendo desejos dúbios.

É, acima de tudo, uma atuação que difere das mulheres decentes que tanto fincaram a persona de Crawford para o grande público. Mas é a grande gama de facetas (sem intenção de fazer piada) que Anna possuem que ajudam a atriz no caminhar do filme. Raiva, dor, desejo, paixão, tudo passa por Anna e tudo sai de forma sublime por Crawford. É até paradoxo que tenha sido uma mulher diferente dos padrões de beleza que revelou um dos melhores lados de uma das mulheres mais lindas do cinema.


Vivien Leigh, That Hamilton Woman (''Lady Hamilton, a Divina Dama'')

Existe vida (e performances!) para além de Scarlett O'Hara e Blanche DuBois no que toca Mrs. Leigh. Mesmo que o filme não seja um primor do inicio ao fim, a entrega de Leigh é invejável. Ela consegue trabalhar todas as nuances que sua personagem requer. Desde sua primeira cena, maquiada em exaustão!, até os momentos mais românticos do filme, Leigh nunca deixa a peteca cair.

É uma atuação bem a cara daquela década, grande, pomposa e com muita teatralidade. Isso poderia ser algo negativo para atrizes menos versadas e profissionais, mas aos olhos (e mãos, e corpo e tudo mais) de Vivien Leigh, tudo se transforma em um puro deleite cênico. É tão latente a sua força no filme que até mesmo seu marido, o grande Sir Laurence Olivier, some perante ela.

sábado, 1 de maio de 2021

Melhor Atriz 1962 - O Milagre de Anne Bancroft


Eu tinha colocado na minha mente que anos falados em exaustão não seriam minha prioridade nessa corrida. E não existe ano mais falado que esse, certo? Afinal, até em minissérie do Ryan Murphy ele foi comentado. Porém, graças a um amigo que chegou nesse fatídico ano, e também porque é bom falar do que é popular, acabei por realizar a análise do ano.

1962 foi o ano que Tarkovsky lançou seu primeiro filme, o Brasil venceu sua única ''Palma de Ouro'' com O Pagador de Promessas, e a maior lenda de Hollywood morreu: Marilyn Monroe. Naquela época, os precursores se dividam, basicamente, entre o New York Film Critics Circle, o National Board of Review e, claro, o Globo de Ouro. Devido a uma greve da mídia impressa, New York não anunciou vencedores naquele ciclo. Com ''Doce Pássaro da Juventude'' lançado em Março de '62 e o Oscar daquele ano só acontecendo em abril, a corrida de Melhor Atriz começou bem cedo, antes mesmo da cerimônia que premiaria os filmes do ano anterior acontecer.

Geraldine Page, indicada naquele cerimônia por ''Summer and Smoke'', era uma atriz chegando aos 40 anos, mas com apenas dois filmes no currículo, ambos lhe renderam indicações ao Oscar. No mês de Junho, há o lançamento de ''The Music Man'', onde Shirley Jones tem um papel substancial, que explode na bilheteria e se torna um dos três maiores lançamentos do ano. No começo do segundo semestre temos o lançamento de ''The Miracle Worker'', o veículo catapultou Anne Bancroft e Patty Duke as graças da crítica, que as laurearam como as grandes atuações do ano até então.


Como sempre, a grande maioria dos filmes do Oscar eram guardados para o fim do ano. Ai no trimestre final, saíram os filmes de Katharine Hepburn (''Long Day's Journey Into Night'', vencedor de Melhor Atriz em Cannes), Shelley Winters (''The Chapman Report'')Melina Mercouri (''Phaedra'', seu filme posterior ao hit ''Never on Sunday''), Bette Davis/Joan Crawford (''What Ever Happened to Baby Jane?''), Rosalind Russell (''Gypsy'') e Lee Remick (''Days of Wine and Roses''). O National Board of Review foi com Anne Bancroft, que também ganhou todos os outros (poucos) prêmios distribuidos no ano.

Naquela época, o Globo de Ouro indicava, até, dez pessoas em uma categoria. E mesmo assim, Joan Crawford foi esnobada. As vencedoras? Geraldine Page (em Drama, que venceu também por ''Summer and Smoke'') e Rosalind Russell (em Comédia/Musical). No dia das nomeações, essas eram as esperadas a entrar na lista:

- Geraldine Page, se o Globo não costumava acertar a vencedora, a premiada era ao menos indicada;
- Rosalind Russell, ''Gypsy'' acabou se tornando um dos hits do começo de '63 e, na época, o fato dela não cantar nada não veio a público; 
- Anne Bancroft, a mais aclamada performance do ano em um filme mais próximo do que a Academia gostava; 
- Bette Davis e/ou Joan Crawford, pelo sucesso do filme e a narrativa de ''comeback'' de ambas;
- Lee Remick, em uma atuação muito elogiada, assim como seu par, Jack Lemmon;
- Shirley Jones, também em um dos grandes hits do ano e, claro, vencedora recente da Academia.

Page, Bancroft, Davis e Remick entraram, junto de Katharine Hepburn, que foi a única indicação de seu filme. ''Gypsy'' e ''The Music Man'' acabaram fracassando nas categorias principais. E porque não Joan Crawford? Dado que quatro das cinco indicadas eram mulher em estão de não-sobriedade, eu presumo que a performance da mesma foi ofuscada pela expansividade de Davis em cena.

Anne Bancroft recebe o Oscar das mãos de Joan Crawford após uma performance de ''Mãe Coragem''

A gente sabe que Bette Davis muito tentou emplacar a narrativa de ''retorno a forma'', o sucesso do filme e tudo mais para se tornar a primeira mulher com três Oscars. Porém, Miracle, mesmo sem ser um grande hit de bilheteria, emplacou nas categorias nobres como Direção e Roteiro, coisa que nenhum dos outros filmes das indicadas chegou nem perto, ouso até dizer que foi o #6 daquela seleção de Melhor Filme. Bancroft também tinha em seu favor uma personagem absurdamente carismática, uma performance fisicamente muito difícil e, acima de tudo, o etarismo da Academia. 

Se hoje a gente está no quarto ano seguido com atrizes acima dos 40/50 vencendo a categoria, naquela época era muito raro alguém acima dos 30 e pouco ganhar. Na verdade, só Marie Dressler (uma lenda do cinema mudo) e Shirley Booth (em uma performance arrasa quarteirão) tinham conseguido o feito. Davis tinha 55, Bancroft tinha 31. Não deu outra, mesmo sem fazer campanha e sem um grande sucesso de bilheteria, Anne se sagrou vencedora e viria a receber mais quatro indicações em sua carreira. Para Davis, foi seu último grande momento. Sobre a ''suposta'' sujeirada de Crawford para impedir a vitória de Bette? Isso eu deixo para vocês assistirem ''Feud'' e tirarem suas próprias conclusões se aconteceu ou não. 

Abaixo, meu ranking das indicadas:


5º Lugar: Lee Remick, Days of Wine and Roses (''Vício Maldito'')

Embora ameace ser uma quase coadjuvante em seu longa, não dá para tirar de Lee Remick a força que ela consegue imprimir em sua atuação, sem nunca ceder a ficar nas sombras de Jack Lemmon. Interpretar uma pessoa alcoolizada não é tarefa fácil, pode sair algo caricatural muito facilmente (Vejam ‘’A Tara Maldita’’ para perceberem), e criar verdade em diálogos tão potentes como o que Lee faz na reta final de seu filme é ainda mais complicado. 

Sua personagem tem fases e nuances, e a atriz está sempre entregando isso com maestria. Tanto que em sua última cena, o espectador tende a torcer muito por ela, dado os vínculos criados até então. Seu último lugar é mais pelo nível da concorrência do que qualquer outra coisa.


4º Lugar: Geraldine Page, Sweet Bird of Youth (''Doce Pássaro da Juventude'') 

Apenas um ano antes, em ‘’Summer and Smoke’’, Geraldine Page fazia uma mulher bastante retraída e introvertida. Aqui, Alexandra Del Lago é totalmente o oposto, é grande, altiva e tem uma língua ferrenha. Ambas personagens são da mente de Tennessee Williams, e as duas são defendidas com fervor por Page. Em ‘’Pássaro’’, Geraldine entrega algo que foge da persona que ela entregou ao longo dos anos na telona (e na telinha). Cada momento de Page em cena é chamativo, ela não precisa levantar o tom, cada palavra é utilizada de forma muito efetivo. E toda vez que ela está em cena com Paul Newman, é um prazer tremendo assistir.

E as suas últimas cenas, em especial a que ela coloca Chance em ‘’seu devido lugar’’, mostram a compreensão dessa loba, não ainda abatida, que habita dentro de Alexandra,, tudo isso expressado através da genialidade de Page. Um 4º lugar de muito respeito.

P.S.: Muita gente não sabe, mas Page também concorreu ao Tony Award por esse papel, e perdeu também para Bancroft fazendo The Miracle Worker.


3º Lugar: Anne Bancroft, The Miracle Worker (''O Milagre de Anne Sullivan'')

O que Bancroft ganha muito nessa seleção é que, sem dúvidas, a sua personagem é que mais se conecta ao público. Ela consegue combinar sua rigidez enquanto uma professora severa com um sentimento verdadeiro de querer uma mudança para a vida dessa menina, que está em uma situação tão difícil, e o sentimento transparece em ambas as situações. É muito real a forma como Bancroft consegue confrontar aquela situação tão complicada, a medida que questiona seus próprios medos e limitações. 

Os olhares para a jovem Hellen Keller são sempre pertinentes, e quando Sullivan consegue progredir em seu ensino, a gente vibra com ela. É uma atuação que precisa de muito mais carisma e ‘’star quality’’ do que, normalmente, citam. Fora, claro, a fisicalidade precisa para realizar diversas cenas ali. Tudo isso, Anne Bancroft tem para dar e vender. Se sua vitória é tão falada por ter derrotado o auge de duas gigantes do cinema, não existe qualquer demérito em sua atuação se avaliada de forma isolada. Pelo contrário, teria sido irretocável em dezenas de outras ocasiões.


2º Lugar: Bette Davis, What Ever Happened to Baby Jane? (''O Que Terá Acontecido A Baby Jane?'')

Tendo visto que coloquei Davis em ‘’A Malvada’’ também em #2 na seleção de 1950, vocês devem achar que odeio Bette Davis. Ledo engano, assim como naquele ano, esse #2 aqui é, basicamente, um 1º lugar. Não é possível assistir ‘’Baby Jane’’ sem ficar embasbacado pela complexidade que Davis entrega a personagem. É uma atuação que reside totalmente no ''over the top'', no extremo, é 100% caricata e, ainda assim, totalmente crível. 

É como se víssemos o psicológico de  Jane transferido para o corpo de Davis. E ainda assim, são nos momentos ‘’menores’’, como as vezes que Jane está sozinha e relembra seus momentos de glória, que Bette entrega as partes mais inspirados de sua performance. Você não aceita as ações de Jane para com Blanche, mas você entende o que a levou até ali. É uma feição, um olhar machucado e solitário. E não existe local mais triste para se viver do que nessas emoções. 

Bette Davis é uma lenda, e ‘’Baby Jane’’ é a prova disso.


1º Lugar: Katharine Hepburn, Long Day Journey’s Into Night (''Longa Jornada Noite Adentro'')

Seria impossível não ter Hepburn no topo da lista, o que ela faz com Mary Tyrone durante todo o longa de Lumet é, para mim, de um brilhantismo intocável. De cara, você percebe o estado quase catatônico que Mary vive. E mesmo assim, a cada novo retorno da câmera a seu rosto, ela consegue ser uma presença imponente. Durante as muitas horas de duração, você embarca numa montanha russa de emoções junto da atriz, que disseca todos os problemas que essa mulher enfrentou e, ainda, enfrenta em sua vida tão conturbada. 

O rosto de Hepburn é uma moldura, uma entrada para as questões de Mary, é o semblante do efeito das drogas na personagem. É quase em estado de transe da atriz, que vai levando o espectador a algo hipnótico ali. Hepburn fica em cena por muito tempo, quando ela sai (por um bom tempo), você sente a sua falta. Só que, obviamente, há um ‘’grand finale’’. Daqueles que poucas atrizes tiveram, e você não tem dúvida alguma do poder cênico de Katharine para com aquela personagem durante toda essa jornada. Brava!

Porém, existem duas atuações daquele ano que mereciam entrar, são elas:


Harriet Andersson, Såsom i en spegel (''Através de um Espelho'')

Só para não falar que estou muito fora da caixinha, ''Espelho'' venceu Filme Internacional e foi indicado em Roteiro. Óbvio que naquela época era muito difícil uma indicação por língua não-inglesa, mas Loren tinha acabado de vencer.

Dizer que Andersson é uma excelente atriz é chover no molhado, todas da trupe de Bergman eram. Porém, em ''Espelho'', ela emula uma fragilidade mental como poucas vezes eu vi no cinema. Existe uma situação de medo, desespero e claustrofobia criado a partir da ambientação e roteiro do Bergman, mas nada disso se sustentaria se não fosse as feições de Harriet em cena. É muito marcante como ela entrega essas sensações de forma quase crua, é grande sem precisar ser. É um excelente registro de atuação não tão recorrente na época, mas que muitos tentam até hoje se igualar.


Melina Mercouri, Phaedra (''Profanação'')

Uns dois anos antes, Melina fez história ao ser o primeiro ator indicado por um filme internacional em uma performance não de língua inglesa. Esse filme era ''Nunca aos Domingos'', de seu marido Jules Dassin. ''Phaedra'' é o primeiro filme após esse grande hit, uma adaptação moderna da tragédia grega de ''Hipólito''. Na época, ela chegou a ter indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA, mas o filme não foi bem aceito como um todo e acabou ficando por aí. Considero injusto, visto que sua atuação é um deleite.

Existe uma mudança drástica no tom de tragédia para puro melodrama, mas Melina é magnética em cena, fica muito claro que a câmera de Dassin a ama, e ela tira muito proveito disso. Ela emana presença em cena, com um poder derivado de sua personagem. Mas não demora para Mercouri se permitir cair e sofrer. E ela faz isso de forma grande, sem receio, é muito gostoso de ver. Sua Fedra nunca diminui a postura, mesmo sofrendo, a altivez da personagem é traduzida por Melina. E isso vai até o fim, em uma atuação marcante o suficiente para poder ter chegado ao Oscar.