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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Quem leva, quem merece e quem deveria estar ai


O prêmio mais velho do mundo, e também o mais cobiçado, terá a sua 88ª edição no dia 28 de Fevereiro e nesse post vou opinar sobre quem vence, quem deveria vencer e quem nem chegou a ser indicado, mas merecia muito. Enquanto a corrida de Melhor Filme nunca esteve tão aberta, todas as de atuações estão fechadas, deixando as maiores dúvidas para as categorias técnicas que irão decidir se Mad Max ou O Regresso que se consagrarão como o maior vencedor da noite.

- MELHOR FILME:

A Grande Aposta
Ponte de Espiões
Brooklyn
Mad Max: Estrada da Fúria
Perdido em Marte
O Regresso
O Quarto de Jack
Spotlight - Segredos Revelados



Quem vence: A briga está entre O Regresso x Spotlight x A Grande Aposta. Queria muito que o filme do mexicano Iñárritu não vencesse, mas com o apoio do sindicato dos diretores, do BAFTA (Oscar britânico), muito burburinho e campanha, acho inevitável a vitória na categoria principal. Tanto Spotlight quanto A Grande Aposta não tem cara de vencedores do Oscar, mas Spotlight liderou o sindicato de atores (o maior número de votantes do Oscar) e é sobre um assunto muito importante, então está na corrida e diria que é o provável segundo lugar. Não muito atrás vem A Grande Aposta, a surpresa da temporada de prêmios retrata uma época problemática do USA de uma forma sagaz, divertida e um tanto original, venceu o sindicato dos produtores e pode surpreender amanhã.

Quem deveria vencer: Não vi O Quarto de Jack, mas é incomparável o produto final de Mad Max: Estrada da Fúria com qualquer outro concorrente, quase como definidor de gênero esse filme de George Miller seria uma das melhores vitórias da história da Academia. Spotlight e Brooklyn são outros dois filmes que gosto muito, por isso queria que o drama sobre os padres pedófilos virasse o jogo contra a história de vingança de DiCaprio.
Quem deveria estar ai: Carol com toda certeza, o filme de Todd Haynes é o melhor filme dessa safra de premiações e sua exclusão da categoria principal quando indicaram Ponte de Espiões, Perdido em Marte e ameaçam premiar O Regresso é um absurdo. Creed e o novo Star Wars também seriam ótimas opções para a seleção.

- MELHOR DIRETOR:

Adam McKay,  A Grande Aposta
George Miller, Mad Mad: Estrada da Fúria
Alejando G. Iñárritu, O Regresso
Tom McCarthy, Spotlight
Lenny Abrahamson, O Quarto de Jack


Quem vence: Existe uma forte campanha para George Miller, mas com a vitória no Globo de Ouro, BAFTA e sindicato de diretores fica dificil para Alejandro G. Iñárritu perder esse prêmio por O Regresso, será uma vitória histórica já que ele será apenas o terceiro diretor a conseguir uma vitória consecutiva nessa categoria do Oscar.

Quem deveria vencer: George Miller, de muito longe, é a melhor direção dentre os indicados e também do ano, o trabalho de Miller beira a perfeição, com um apuro visual que deverá será lembrado até o fim dos tempos no âmbito cinematográfico.

Quem deveria estar ai: Todd Haynes e seu trabalho minimalista em Carol eram obrigação da Academia.

- MELHOR ATOR:

Leonardo DiCaprio, O Regresso
Bryan Cranston, Trumbo
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, A Garota Dinamarquesa
Matt Damon, Perdido em Marte


Quem vence: A vitória de Leonardo DiCaprio é a maior certeza da noite, será a tão aguardada vitória do atual maior astro de Hollywood e podem se preparar porque a salva de palmas será enorme.

Quem deveria vencer: Não existe ninguém mais fã de DiCaprio do que eu, mas mesmo sendo o segundo melhor de uma categoria bem aquém, ainda acho que a melhor performance indicada é de Michael Fassbender por Steve Jobs, mas óbvio que a vitória de Leo será ótima de qualquer forma.

Quem deveria estar ai: Eu fiquei encantado com o trabalho de Michael B. Jordan em Creed e num ano que tanto se pedia diversidade foi uma bola fora a sua esnobada.

- MELHOR ATRIZ:

Brie Larson, O Quarto de Jack
Cate Blanchett, Carol
Charlotte Rampling, 45 Anos
Saoirse Ronan, Brooklyn
Jennifer Lawrence, Joy


Quem vence: Em mais uma barbada da noite não espere ninguém vencendo que não seja Brie Larson, a atriz é basicamente uma novata, mas arrebatou totalmente a crítica, público e os prêmios pelo papel da mãe que faz de tudo para libertar seu filho em O Quarto de Jack.

Quem deveria vencer: Ainda não puder conferir o desempenho de Larson, mas nem duvido que ela realmente seja a que mais mereça. A categoria está linda, a melhor dentre as de atuação, e até Jennifer Lawrence que está no péssimo Joy ainda brilha muito, dentre as quatro indicadas vistas eu ficaria com Charlotte Rampling pela performance sútil, mas eficiente e também pela maravilhosa carreira da atriz.

Quem deveria estar ai: A melhor atuação feminina do ano pertence a Elisabeth Moss em Rainha do Mundo, uma performance visceral, marcante e daquelas que definem uma atriz, mas se até a crítica e os prêmios menores esqueceram dela, nunca que a Academia que iria reparar esse erro, não é mesmo?

MELHOR ATOR COADJUVANTE:

Christian Bale, A Grande Aposta
Tom Hardy, O Regresso
Mark Ruffalo, Spotlight
Mark Rylance, Ponte de Espiões
Sylvester Stallone, Creed


Quem vence: Depois de passar quatro décadas fazendo o lendário Rocky Balboa, finalmente o astro Sylvester Stallone será reconhecido e deve vencer, sem muitos problemas, a categoria de ator coadjuvante. A vitória traz um pouco de nostalgia para os votantes e esse com certeza é um sentimento que eles amam.

Quem deveria vencer: Gosto muito do trabalho de Mark Ruffalo, até entendo os louros a Rylance, Bale e Hardy, mas mesmo sem nunca ter sido um grande ator fica difícil negar toda a entrega de Stallone em cena, que conhece e incorpora tão bem o personagem que mais parece um outro lado do próprio ator, e talvez até seja.

Quem deveria estar ai: Falo sem pensar duas vezes que a exclusão de Benicio Del Toro por Sicario é uma palhaçada, especialmente quando indicam Tom Hardy por vilão sem alma e Mark Rylance por fazer tão pouco. E isso porque nem conferi a tão aclamada performance de Idris Elba em Beasts of No Nation.

- MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:

Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
Rooney Mara, Carol
Rachel McAdams, Spotlight
Alicia Vikander, A Garota Dinamarquesa
Kate Winslet, Steve Jobs


Quem vence: Winslet até ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA, mas isso só ocorreu porque Alicia Vikander concorria em protagonista nessas premiações por seu papel no sofrível Garota Dinamarquesa. Vikander não é coadjuvante em seu filme, mas sua fraude não é a primeira e nem será a última, a sueca que estourou em milhares de filmes em 2015 deve começar sua incursão em Hollywood já com o careca dourado em mãos, um feito impressionante.

Quem deveria vencer: Vikander está ótima, McAdams me surpreende e Winslet até tenta, mas seu personagem é mera escada. Acho que as duas melhores atuações da categoria são de Mara e Leigh, mas como Mara é clara protagonista de seu filme, o Oscar deveria ir pras mãos de Jennifer Jason Leigh que criou nesse último Tarantino uma personagem tão odiosamente deliciosa que é impossível não torcer por Daisy quando ela está em cena.

Quem deveria estar ai: Tirassem as fraudes Vikander e Mara e trocassem por reais coadjuvantes como a própria Alicia Vikander em Ex Machina, uma ficção científica onde Vikander incorpora uma robo de forma suntuosa e sem uma nota falsa sequer em sua performance. Rachel Weisz em Youth também seria uma boa opção.



- Melhor Roteiro Original: A vitória mais certa de Spotlight é nessa categoria, e merecido.

- Melhor Roteiro Adaptado: Duvido que A Grande Aposta perca aqui, mas Carol é o melhor da categoria.

- Melhor Animação: Outra certeza da noite é a vitória de DivertidaMente aqui, mas tem quem ache Anomalisa melhor.

- Melhor Filme Estrangeiro: O Filho de Saul vencerá sem muita concorrência, afinal para bater o holocausto não é nada fácil quando se trata de Oscar.

- Melhor Documentário: Amy, mas não duvide de Look of Silence.

- Melhor Curta de Documentário: Vou de Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah, que fala de como o diretor Lanzmann demorou 12 anos para fazer um documentário de quase 10 horas sobre o holocausto, mas Body Team 12 fala do ébola e tópicos recentes as vezes se dão bem.

- Melhor Curta: Shok deve vencer, mas uma surpresa de Stutterer é provável.

- Melhor Curta de Animação: Sanjay's Super Team, mas só por ser Pixar e ter tido visibilidade, porém uma vitória de World of Tomorrow do aclamado Don Hertzfeldt não tá fora de visão, assim como Bear Story que apela para o sentimental.

- Melhor Trilha Sonora: Os Oito Odiados porque Ennio Morricone não ter Oscar é palhaçada, mas a trilha de Carol é a mais linda das 5.

- Melhor Canção Original: É muito dificil que a dupla Diane Warren, oito vezes perdedora do Oscar, e Lady GaGa percam por Til' It Happens to You, e embora muitos falem que se perder será para o Sam Smith (Deus não permitirá!), acho que a verdadeira concorrência é Simple Song.

- Melhor Edição de Som: Mad Max, mas O Regresso pode surpreender.

- Melhor Mixagem de Som: O Regresso, mas Mad Max não está fora de questão.

- Melhor Design de Produção: Mad Max, mas a categoria pode surpreender bastante e tirando O Regresso qualquer um pode vencer, especialmente Garota Dinamarquesa e Ponte de Espiões!

- Melhor Fotografia: O Regresso, criando um record de mais vezes seguidas que uma pessoa venceu sozinha uma categoria do Oscar para Chivo.

- Melhor Maquiagem e Cabelo: Mad Max, mas fizeram tanto marketing para a maquiagem de DiCaprio que descartar O Regresso é burrice.

- Melhor Figurino: Mad Max, mas Cinderella tá bem ali atrás.

- Melhor Montagem: Mad Max, e se der A Grande Aposta não se surpreendam.

- Melhores Efeitos Visuais: Star Wars: O Despertar da Força, mas Mad Max também tem chances aqui
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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

REVIEW: Carol - Um espelho que tem muitas faces


O primeiro filme de Todd Haynes foi lançado em 1991 e após mais de duas décadas o diretor tem, somente, seis filmes em seu currículo. É intrigante pensar que alguém demore tanto para a realização de suas obras, mas basta ver um de seus filmes que logo se percebe o porque de sua seletividade. Cada um é uma obra de arte única e totalmente intrínseca a tudo que o diretor sempre quis debater em seu cinema, e devido a essa singularidade que seu mais novo projeto, Carol (idem, 2015), não me deixou nenhum pouco espantado quando percebi que era o grande filme do ano.

Em resumo o longa trata do relacionamento que surge entre a experiente e rica Carol (Cate Blanchett) e a jovem vendedora de loja de departamento Therese (Rooney Mara), isso nos anos 50. O diretor já tinha trabalhado a década anteriormente no magnífico Longe do Paraíso (Far from Heaven, 2002), onde também evocava o tema de ''amor proibido'' que é o que distingue muito do que separa ''Carol'' de qualquer filme ambientado na década de ouro de Hollywood. E assim como ''Longe'', o diretor estabelece que toda a atmosfera apresentada te transporte para os filmes de diretores como Douglas Sirk (ídolo pessoal de Haynes) utilizando de uma fotografia mais opaca com penumbra e névoa, figurinos da mais pura classe feitos pela maravilhosa Sandy Powell, até chegar no que é quase um personagem por si só: a trilha de Carter Burwell, que evoca todos os sentimentos possíveis em todas as pontuações espetaculares a qual ela sempre é usada.

O ponto de vista de Therese quanto a Carol dá a entender que ela é muito cheia de si, alguém experiente e que sabe o que quer e como ela quer, enquanto que a própria Therese aparenta ser mais introspectiva, reservada e que pode se deixar deslumbrar por pouco. Porém, é um engano achar que o filme irá contar a história de forma tão rasa e unidimensional. O roteiro (brilhantemente escrito por Phyllis Nagy) logo estabelece uma crescente a medida que Carol e Therese vão se aproximando uma do mundo da outra, da mente da outra, do coração da outra e quando o espectador menos espera, ainda ali no meio da projeção, já está tragado para um dos relacionamentos mais interessantes que você verá no cinema em muito tempo.



O clima soturno do filme pode deixar a impressão de ser frio, artificial, enfim, tudo que ele não é. Tudo está ali: o amor, a paixão, o querer, o fogo e o que mais existe em uma relação, mas nem tudo que você quer, você automaticamente pode ter e nessa redoma do ''não posso tocar'' o diretor, em um toque de mestre, fica apaixonado por filmar suas atrizes através de vidros (dos mais variados possíveis) numa tradução de imagem que pode ser interpretada desde proteção até ilusão. Afinal, o quão tangível esse caso realmente é para elas? E para o espectador? É algo difícil de responder.

Para que todo esse jogo realmente se complete o diretor precisaria de um elenco de confiança, e se os coadjuvantes (como os ótimos Sarah Paulson e Kyle Chandler) estão todos muito bem, as duas atrizes principais estão estupendas em seus papéis. Cate Blanchett, vencedora de dois Oscars, começa o filme em uma performance que flerta entre o autoindulgente e o vaidoso, mas é só o roteiro cair pra o ponto de vista de sua personagem que vemos logo uma mudança de tom por alguém que realmente precisa por um sorriso de canto para viver todos os dias, e se existe alguma dúvida da força de Blanchett no filme, a sua cena final com o marido é o que nós chamamos de ''master class'' da atuação, uma atriz divina em seu auge cinematográfico.

Já a atriz Rooney Mara sempre foi meio apática, mas inteligente como poucas de sua geração sempre soube escolher os melhores projetos com pessoas que sabem tirar o melhor dela, em Carol ela é uma revelação. Sempre com cuidados para demonstrar o desabrochar de Therese, a atriz utiliza dos mais mínimos trejeitos como uma lágrima em um trem ou um sorriso de canto ao entregar um presente de natal para firmar uma construção de personagem linda, e quando chegamos ao fim do ciclo de Therese no filme chega a ser gritante a forma como Mara soube desenvolver tudo que precisava para torná-la uma ''mulher'', palmas para a atriz, muitas palmas.


Após o fim do longa e um bom tempo para aceitar tudo que foi exposto em tela fica a percepção de um filme com um diretor em plenitude do que sabe fazer melhor, daquele mestre que já se aperfeiçoou em oficio e, nesse caso, sabe usar a câmera para contar uma história como poucos são capazes nos dias atuais. O caso de Haynes é ainda mais único porque seus contos, como dito previamente, são sempre tão lindos, e por muito melancólicos, que faz parecer com que cada frame da tela seja um quadro que se completa nessa obra de arte do cinema que é Carol.

Uma sequência (pequeno spoiler, mas que tem no trailer): A cena de sexo entre as duas que é um desbunde de tão linda no que tange direção, entrega de atrizes e uma trilha sonora belíssima. 

Cotação: